A resposta do Black Sabbath

Pego no pior momento da pior turnê, Ozzy Osbourne deu algumas declarações à revista Circus das quais se arrependeria mais tarde. A revista, então, deu ao vocalista a chance de rever o que havia dito em nova entrevista
22/07/2009

 

Há um velho pequenininho andando para lá e para cá sobre o carpete vermelho e preto. Nas suas mãos há um quepe de motorista particular e uma reluzente limusine preta espera na porta. O homem está inquieto porque não sabe bem quem ou o que vai encontrar ali. Num cinema logo ali na esquina está em cartaz O Exorcista e ele espera por algo chamado "Black Sabbath". Black Sabbath... De um nome desses não dá para esperar nada menos do que algo repugnante.

Mas logo ali está o centro das atenções desse tal de Black Sabbath e ele não parece tão assustador assim. Ele é mais baixo do que se poderia esperar e seus longos cabelos castanhos receberam um corte estranho – no entanto, sua aparência inocente e os grandes olhos castanhos são os mesmos. John Osbourne está usando jeans e uma blusa marrom de gola alta que não disfarça que está acima do peso. Ele está de volta aos EUA pela primeira vez em dois anos.

Ao seu lado, há um cavalheiro baixinho vestido uma cara jaqueta de veludo e calça social. Ele poderia muito bem passar por um banqueiro ou executivo, não fosse pelo cabelo louro na altura dos ombros. Ele segue John Ozzy Osbourne de uma forma protetora por onde quer que este vá e, ao cruzar com o preocupado motorista, avisa que a banda logo estará ali para se dirigir ao Spectrum Arena, na Filadélfia – para onde o motorista terá o prazer de levá-los.

Ozzy chama o elevador e confere seu novo cabelo no espelho que fica em volta do botão. "Meu cabelo é minha religião", fala ele sobre o novo corte, "e eu não gosto de falar a respeito". Na verdade, ele queria falar sobre uma
matéria que leu na revista Circus. "Pra começar, muita coisa que está lá é mentira", afirma, com um leve sotaque britânico. "Acho que os leitores da revista merecem saber a verdade."



Ozzy se refere ao artigo "Why Black Sabbath Hates America" (publicado em fevereiro de 1973 e cuja versão em português você encontra aqui no site, sob o título "Por que o Black Sabbath odeia os EUA"), na qual ele disse que os americanos fazem qualquer coisa por dinheiro e que seriam todos malucos, culminando com a afirmação mais pesada de todas: "É muito bom que metade dos fãs não leve caixões para os shows". Quando a revista chegou às bancas, os músicos da banda abriram guerra contra ela e a antes amada Circus passou à condição de inimiga do Black Sabbath.Conversa no hotelOzzy concordou em conversar com um dos correspondentes da revista em seu quarto de hotel enquanto se preparava para o show no Spectrum Arena. Ele saiu calado do elevador, procurando a chave de seu quarto no bolso de trás de sua calça. É possível ver que sob a blusa marrom ele veste uma camiseta e em volta do pescoço está pendurada uma corrente de ouro 18 quilates com um grande pingente com as letras "O Z Z Y".

Ozzy abre a porta do quarto 1.011 e entra. Pelo chão, várias malas abertas, a maioria mostrando roupas de inverno: casacos, meias, camisas e muitos sapatos. Em uma das malas, que está aberta em cima de uma das duas camas existentes no quarto, há um par de longas botas prateadas e um spray analgésico para gargantas inflamadas. Sobre um armário repousa um sofisticado aparelho de som e, ao seu lado, inúmeras fitas cassete. Sabbath, Bloody Sabbath, mais recente disco da banda, é uma delas. A fita com o último disco de Donovan (N. do T.: cantor e compositor folk nascido na Escócia que fez muito sucesso nos anos 60 e 70) está no aparelho, pronto para ser tocada. "Eu adoro Donovan", comenta Ozzy quando perguntado sobre o cantor. Mesmo fazendo um som tão diferente daquele que o Black Sabbath faz? "Claro. Na verdade, eu não gosto muito do meu próprio som", comenta ele. "Já Donovan é extraordinário!"

Em seguida, o vocalista abre um dos três exemplares da Circus que repousam em cima de sua cama. Quando se depara consigo mesmo no poster da edição de dezembro, resmunga: "Eu precisava ter feito a barba nesse dia, não é mesmo?" Mas quando abre na página dupla da edição de março (com Johnny Winter na capa) que traz não só a si mas também os demais membros da banda, seus olhos se arregalam. "Essa foto está demais! Eu pareço um lunático!"

Ele joga a revista de lado e começa a falar de seus ressentimentos em relação à Circus. "Eu me lembro quando dei essa entrevista", diz ele. "Estávamos indo tocar no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Era o final de uma tour enorme, ficamos um ano inteiro na estrada. Nossas cabeças estavam em parafuso e fisicamente estávamos uns verdadeiros farrapos."

De fato, os músicos não estavam nada bem no final daquela turnê. O sucesso que conquistaram nos EUA os levou ao país nada menos que oito vezes antes de 1973. Entre outras conseqüências, no show do Hollywood Bowl a que o vocalista se refere e que reuniu 20 mil fãs, Tony Iommi teve um acesso de pânico após a apresentação.


Momento errado

Foi justamente nesse momento, quando a turnê exaustiva começava a cobrar seu preço dos músicos, que o correspondente da revista conversou com Ozzy e perguntou suas impressões sobre os EUA. "Eu disse que não estava legal e que queria voltar pra casa", explica ele. "E aí saiu escrito que o Black Sabbath odiava os EUA! Isso é sensacionalismo barato." Mas ele não falou isso mesmo? Não é verdade que, naquele momento, ele estava odiando os Estados Unidos, os fãs americanos e o fato de estar longe de casa? "Bem, mas o que poderia alguém dizer depois de ficar tanto tempo longe de casa como nós ficamos? Nós estávamos quase morrendo no palco!"

Porém, mesmo com Ozzy reclamando sobre o estrago que a matéria pode ter causado à banda, a verdade é que a popularidade da Black Sabbath nos EUA não chegou a ser afetada pelo episódio. Mas ele insiste assim mesmo: "Não está sendo muito simples lidar com o público nessa turnê. Tem muita gente que pensa que nós não gostamos deles por causa da matéria."

De qualquer modo, é verdade que algumas coisas realmente mudaram nessa tour. Por exemplo, as groupies que sempre cercaram a banda agora não são mais vistas. Quando Ozzy deixou seu quarto no hotel para se juntar aos outros três membros do grupo, não havia viva alma esperando por eles. Acompanhando por seu empresário americano, Mark Forster, Ozzy carregou sua própria mala do hotel até a limusine Lincoln. Acomodado no banco do fundo do enorme carro, ele desligou a TV que mostrava um jogo de hóquei. "Você acha que aquela matéria prejudicou as vendas dos nossos discos por aqui?", pergunta ao empresário. Mark Forster, se mexendo sem parar no banco do carro, fecha sua colorida jaqueta de veludo e explica que quem estava liderando as paradas americanas era Jim Croce (N. do T.: cantor e compositor americano que acabara de morrer aos 30 anos num acidente aéreo). "Quem diabos é Jim Croce?", quer saber o vocalista. Quando Mark explica que o Black Sabbath competia com alguém que não fazia mais parte do mundo dos vivos, Ozzy fechou a cara e passou a olhar pela janela do carro, mal-humorado.

Fora do auditório para 24 mil pessoas, centenas de fãs que não conseguiram ingressos se amontoam no frio. Quando a limusine de Ozzy passa por eles rapidamente, ninguém sequer vira a cabeça, não percebendo que a atração principal do show estava a menos de dois metros deles. O motorista passa por uma gigantesca porta de metal e o carro é engolido pelo lugar. A porta se fecha atrás deles, o carro pára e Ozzy é levado direto para o camarim.


Amor e sangue

O camarim ao lado é só festa e ansiedade: lá está se preparando o Black Oak Arkansas, que também vai participar do show. Ao contrário, no camarim do Black Sabbath o único som que se o ouve é o de Tony Iommi afinando sua guitarra. Os quatro integrantes da banda demoníaca estão sentados em círculo numa minúscula sala restrita enfronhada em algum ponto das vísceras do local. A comida oferecida à banda permanece intocada do lado de fora. Dessa vez, o Black Sabbath não quer ter contato com nada que possa distraí-los.

Quinze minutos antes de entrar em cena, Ozzy abre sua mala e pega as botas prateadas e umas calças amarelas com franjas. Ele ainda traja uma camiseta feita por um fã, também com franjas tanto nos braços como nas costas. Completando tudo isso está um boné amarelo com a inscrição "Sabbath, Bloody Sabbath". Estaria Ozzy nervoso antes de se apresentar diante de 24 mil pessoas? "Sim e não", diz ele, já subindo a rampa que leva ao palco. "O número de pessoas não importa desde que tudo dê certo."

Enquanto milhares de fãs se esgoelam assim que a banda entra em cena, Ozzy ergue os braços, e faz o "V" de paz e amor com os dedos, como que abençoando o público. Em seguida, agarra o microfone e encara a massa que se acotovela diante do palco. "Nós amamos vocês!", berra ele. "Nós amamos vocês! Amamos mesmo!!"


 

Fonte: Ozzy Brasil
Postado por: Lucas

 

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